No Dia Nacional do Sistema Braille, conheça a história inspiradora do professor Wellington dos Santos

No 8 de abril, o estudante que se formou professor e hoje leciona na sala de recursos da escola onde iniciou parte da sua trajetória

José Wellington dos Santos, pedagogo, cego, professor na Escola Estadual Senador Leite Neto, localizada no bairro Grageru, em Aracaju, aprendeu a formar as primeiras frases em braille em apenas três dias.

Sentado em um banco da escola onde leciona, o telefone de Wellington toca no bolso e logo ele pega para atender a esposa. Era uma chamada de emergência, pois a esposa de Wellington sentia forte dor de dente e precisava ir ao hospital. Também com deficiência visual, Vânia pediu o auxílio do marido, que, prontamente, ligou para o plano de saúde para resolver o problema. Ele utilizou um aparelho celular com comando de voz e touch screen, adaptado para pessoas com deficiência visual. O que chama a atenção quando Wellington utiliza o celular é a facilidade com que ele faz as ligações, bem como quando não utiliza o comando de voz, acionando o tato para atender as pessoas.

Nascido em 1976, José Wellington não era cego, tinha baixa visão, ou seja, não enxergava bem em função de diversos problemas de saúde, como o acometimento de glaucoma, miopia aguda e catarata, que resultaram na cegueira completa ao passar dos anos. Ele sofreu ainda com descolamento de retina e retinose pigmentar. Casado, tem dois filhos sem problemas de visão e uma vasta história para contar. Aos 19 anos, a primeira carteira onde se debruçou para aprender braille com a professora Maria Irma foi do Centro de Apoio Pedagógico (CAP), em meados de 1999, em Aracaju.

Depois de percorrer alguns estados brasileiros ao lado da mãe em busca de cuidados médicos para tratar os problemas de visão, voltou para Sergipe com a notícia de que poderia estudar no CAP, onde foi o primeiro aluno cego a frequentar as aulas de braille. “Em 1998, eu ouvi pelo rádio, numa sexta-feira, a inauguração do CAP no bairro Suíssa. Eu fui na quarta-feira da semana seguinte e me matriculei. Cheguei lá e fui o primeiro aluno a estudar sozinho e fui chamando alguns colegas”, disse.

Com o desenvolvimento acelerado na aprendizagem do sistema braille, não demorou para que em 2003 Wellington se tornasse voluntário na Escola Estadual Senador Leite Neto, unidade de ensino de referência para estudantes com deficiência visual. Lá, dava orientação de mobilidade e apoio aos estudantes com o material didático em braille. Foi também nessa unidade de ensino que José Wellington frequentou, aos 21 anos, a Educação de Jovens e Adultos (EJA), cursando da 2ª à 8ª série do Ensino Fundamental. Muito obstinado, seguiu os estudos no Instituto Rui Barbosa (IERB), unidade profissionalizante da Rede Pública Estadual de Educação de Sergipe, e concluiu o Ensino Médio aos 30 anos.

De lá para cá, cursou Pedagogia, fez pós-graduação, e há dez anos trabalha na Rede Pública Estadual de Educação, exatamente onde encontrou, ainda com sobressaltos, uma fresta de esperança e portas abertas para acessar o direito fundamental à educação inclusiva. Na sala de recursos multifuncionais tipo II da Escola Estadual Senador Leite Neto, Wellington atua como professor de forma complementar; ou seja, o aluno com deficiência visual frequenta as aulas com os demais estudantes, porém obtém na sala de recursos orientações acerca do desenvolvimento das atividades. Se é para realizar uma pesquisa ou estudar para uma matéria específica, o professor Wellington auxilia o estudante.

Segundo a gestora da Escola Estadual Senador Leite Neto, Meirismar Pereira Santos, 32 crianças são atendidas na sala de recursos multifuncionais do tipo II, dentre as quais quatro são alunos do professor Wellington, e também de outros professores com especificidades de ensino, como a linguagem em libras, por exemplo. “Nós temos um carinho muito especial pelos alunos que frequentam ou frequentaram a sala de recursos, porque alguns deles já concluíram o 9º ano e tiveram que se despedir da gente. Eles são esportistas, fazem atletismo, natação e receberam o apoio de profissionais competentes e muito dedicados, como o professor Wellington, a professora Cláudia e a professora Sandra”, comentou.

Acesso à aprendizagem

A Rede Pública Estadual de Ensino de Sergipe conta com a atuação de 11 salas de recursos multifuncionais do tipo II. Lilian Alves, coordenadora da Divisão de Educação Especial (Dieesp) da Secretaria de Estado da Educação, do Esporte e da Cultura (Seduc), explica que as salas são equipadas com recursos de acessibilidade para alunos com deficiência visual. “As salas de recursos multifuncionais do tipo II contêm equipamentos e material didático-pedagógico para o atendimento a alunos com deficiência visual; impressora Braille (pequeno porte); máquina de datilografia Braille; reglete de mesa; punção; soroban; guia de assinatura; kit de desenho geométrico e calculadora sonora; além de brinquedos e outros materiais pedagógicos em alto relevo”, relatou Lilian.

Atualmente, a Rede Pública Estadual de Educação, por meio da Coordenadoria de Estudos e Avaliação Educacional (CEAVE), quantificou 191 pessoas com baixa visão e 13 com cegueira, matriculadas em 2020, totalizando 204 estudantes. O número é maior do que em 2019, que obteve 176 pessoas com baixa visão e 15 com cegueira, totalizando 191 alunos. Além das onze salas de recursos multifuncionais à disposição, distribuídas pelo estado de Sergipe, a população também conta com o acervo em braille da Biblioteca Pública Epiphanio Dória, localizada na rua Vila Cristina, no bairro Treze de Julho, em Aracaju.

A biblioteca tem um acervo de 424 títulos em Braille; 85 em fonte ampliada e 675 títulos em formato acessível MP3. “Nós temos um acervo impresso em braille de aproximadamente 400 obras, tanto de temas adultos quanto de temas para o público infantojuvenil. São romances, livros históricos, pedagógicos, e um acervo em audiolivro de aproximadamente 600 títulos. Então, juntando tudo, esse acervo é muito rico e serve como base para as pessoas virem fazer pesquisas”, explicou a professora responsável pelo acervo em braille, Anatércia Silva Santos.

Em busca de mais autonomia para si e para os semelhantes, o professor José Wellington não para de sonhar. Com o profundo desejo de cursar um mestrado em educação, esse Educador vive em função de uma sociedade em que o braille seja uma realidade em todos os espaços. Quando alcançar o sonho de ser Mestre, pretende ampliar os estudos na perspectiva de criar meios de melhorar as condições de trabalho para pessoas com deficiência visual em regência de classe. Aos 44 anos, José Wellington dos Santos é vice-presidente da Associação Sergipana de Pessoas com Deficiência Visual (ASDV) e um dos fundadores da Associação de Deficiente Visual de Sergipe.

 

 

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