Prédio cedido pela Prefeitura de Aracaju ao Ipaese amplia possibilidade de inclusão social na capital

Na primeira quinzena de novembro deste ano, a Prefeitura de Aracaju publicou o decreto que garante a cessão de um imóvel do município para o Instituto Pedagógico de Apoio à Educação do Surdo de Sergipe (Ipaese). Com isso, a instituição passa a ter sede própria, pelos próximos 20 anos, para dar continuidade e ampliar a oferta de educação regular para crianças e jovens surdas, do ensino fundamental até o ensino médio.

Entretanto, o que para alguns pode parecer apenas mais um contrato, para os assistidos é a possibilidade de, realmente, continuar a se sentir parte inclusa na sociedade, com perspectiva de se desenvolver com um cuidado voltado único e exclusivamente para a sua deficiência.

Criada no ano 2000 por iniciativa de seis pais, o Ipaese se tornou escola no ano seguinte e, atualmente, atende a cerca de 100 pessoas, entre 6 e 30 anos de idade. Além de outras atribuições, o Instituto oferece ensino regular do Fundamental ao Médio, em dois turnos, manhã (para o Fundamental Menor) e tarde (para o Fundamental Maior e Ensino Médio).

“O instituto foi fundado em função da dificuldade que tínhamos em encontrar alternativas de educação para os nossos filhos. Éramos pais de classe média, ou seja, nossos filhos estudavam em colégios particulares, porém, não existia adequação das escolas para educar nossos filhos. Alguns pais tinham desistido de dar seguimento à educação das crianças, estavam mandando para fora do estado. No início, inclusive, pensamos em fazer o acompanhamento dos nossos filhos nas escolas, mas, quando formamos uma comissão, nenhuma escola aceitou. A realidade da instituição mudou e muito”, conta a presidente e uma das fundadoras do Ipaese, Ana Nunes.

Como há 20 anos a educação inclusiva não era devidamente compreendida, as dificuldades para dar suporte a crianças e adultos com algum tipo de deficiência eram muitas. Os anos passaram, mas, os desafios ainda existem e, embora o tema seja discutido e até olhado com mais profundidade, o caminho a percorrer para a igualdade de suporte e oportunidade é longo. Por isso, todo pequeno reconhecimento ou cooperação tem um significado potente para a vida dos pais e assistidos.

Inicialmente, a instituição conseguia ser mantida pelos pais dos alunos, mas, atualmente, a situação é diferente. “Hoje, temos pais que, muitas vezes, dependem do benefício que o filho recebe. Cerca de 99% dos assistidos são de baixa renda, ou seja, não podemos pedir grandes contribuições a essas famílias. Portanto, contamos com parceria com outros três municípios, com o Estado e com algumas empresas privadas”, explica a presidente do Ipaese.

Por isso, completa Ana Nunes, o imóvel cedido pela Prefeitura de Aracaju é tão importante. “Como temos uma alta despesa com aluguel, essa cessão do imóvel vai nos dar tranqüilidade por 20 anos o que, inclusive, nos possibilita unir mais forças para podermos até construir um prédio próprio”, afirmou a presidente.

De acordo com Ana, situações difíceis ameaçaram a continuidade dos trabalhos. “Durante certo período, passamos por muitas dificuldades, mudamos várias vezes de espaço e, inclusive, na penúltima vez que mudamos, fomos despejados. Estávamos num prédio da Coroa do Meio e tínhamos um convênio que pagava o aluguel, mas, quando terminou o prazo do convênio e não houve renovação, então, não conseguimos pagar o aluguel. Graças à outra entidade, conseguimos um local provisório durante os dois anos até o convênio ser renovado. Agora, temos as mãos da Prefeitura”, destaca, ao enfatizar a parceria com o poder público.

Trabalho realizado

O espaço cedido pela Prefeitura é um antigo prédio da Secretaria Municipal da Educação (Semed) situado ao lado da atual sede do Ipaese, uma escola bilíngüe.

A escola conta com mais de 20 professores e cumpre o currículo escolar normal, o que difere das demais escolas é a introdução à LIBRAS desde o momento em que a pessoa chega. Todas as séries têm a disciplina LIBRAS como tem a disciplina português, matemática, e assim por diante. Toda a comunicação é feita em LIBRAS e os alunos escrevem em português. Por isso é tida como uma escola bilíngue.

Além da escola, a instituição tem um projeto junto à Secretaria da Assistência Social de Aracaju que desenvolve capacitação para a profissionalização, assim, trabalha robótica, introdução à informática, designer gráfico, manutenção de computador, fotografia e desenvolve um trabalho para o público ouvinte, o curso de LIBRAS em duas turmas – básico 1 e 2.

Horizonte mais amplo

Bianca Leite dos Santos, de 21 anos, é uma das alunas da escola. Ela chegou ao Ipaese aos 15 e, de lá para cá, mudou seu olhar em relação a si mesma. “Sinto que me desenvolvi muito mais quando entrei no instituto. Por ter uma escola voltada para a minha deficiência, toda a linguagem facilita a minha comunicação, meu aprendizado. Com o novo prédio, sei que as coisas ficarão melhores porque também acompanhamos algumas dificuldades e isso vai ajudar muito”, afirma através da linguagem dos sinais.

Com a mesma idade e tempo de Ipaese que Bianca, Vinicius de Jesus diz que não consegue imaginar como seria sua rotina sem o instituto. “Depois que entrei, passei a me sentir mais integrado ao mundo porque passei a ser entendido. Pude aprender sobre muitas coisas e cresci. Hoje, me enxergo como uma pessoa que pode conquistar ainda mais. Saber que o instituto não vai ter mais uma alta despesa, me conforta porque sei também que outras pessoas vão poder continuar sendo acompanhadas”, comemora o jovem.

Também aluno do Ipaese, Matheus dos Santos Freire estudou em escolas não especializadas em surdos e pode comparar os momentos vividos. “Não foi uma experiência ruim estudar numa escolha que as pessoas chamam de ‘normal’, mas, sentia que faltava muito para que eu me sentisse bem. O Ipaese abriu minha mente para muitas possibilidades e eu posso dizer que existe um Matheus diferente, agora, um Matheus que se sente muito melhor, mais confiante. Acredito que todo apoio é muito bom porque o instituto ajuda muita gente a se encontrar”, frisou.

Voluntária e mãe de aluna do Ipaese, Aparecida Santana viu a filha, hoje com 17 anos, sair da tristeza à alegria. “Ela nasceu pré-matura, com 6 meses, e, começou a perder a audição com 1 anos e 7 meses. Como ela não aceitava a surdez, a coloquei numa escola ‘normal’. Mas, não deu muito certo. Cheguei ao instituto através de uma fonoaudióloga e foi o Ipaese que ensinou à minha filha tudo o que ela sabe. Ela deu um salto de 100%. Decidi ser voluntária por me sentir grata e sei que precisa de muita ajuda. Melhorei muito como ser humano depois que comecei como voluntária. Aprendi LIBRAS e, inclusive, a relação com a minha filha melhorou muito porque passamos, de fato, a nos comunicar e isso faz muita diferença na vida”, salientou.

 

 

 

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